10 Agosto, 2019

As máquinas substituirão o homem?



Para projetar o futuro das profissões é preciso também projetar quais problemas passarão a existir. Eis o desafio.

Por Ana Julia Sampaio

Um dos temas em voga na área de tecnologia é relacionado à preocupação de que as máquinas substituam os homens no trabalho. 

É fato de que desde o advento da Revolução Industrial tal substituição é peremptória, mas até o momento as mudanças caminham lentamente frente ao que hoje chamam de revolução 4.0 e que promete substituir o homem em boa parte das funções existentes e que passarão a ser executadas por robôs.

Exemplos dessa tendência não nos faltam: carros elétricos como o Tesla, arquivos na nuvem, internet das coisas, inteligência artificial, big data entre outros. 

A sincronia e a justaposição dessas tecnologias podem sim levar à verdadeira revolução e à mudança na forma de trabalhar, sobretudo porque a integração de sistemas que foram construídos isoladamente podem tomar formatos que ainda desconhecemos.

No entanto, se por um lado muitas profissões deixarão de existir, outras tantas serão criadas e é difícil imaginar que se possa prescindir do ser humano totalmente.

É necessário se preparar para o que está por vir e não ignorar as mudanças e benefícios que a tecnologia pode nos trazer, principalmente no que se refere à sustentabilidade, a destacar a utilização correta de recursos naturais e também ao uso inteligente do conhecimento.

Se o ser humano também é passível de atitudes duvidosas, deve-se sim ter um cuidado extremo ao normatizar o uso dos recursos tecnológicos, porque com tanto poder em mãos não é difícil imaginar que algo que possa ser usado para nos beneficiar também tenha muito poder para nos prejudicar.

Esta percepção, a meu ver, coloca um peso enorme sobre as pessoas com poder de decisão, sobretudo na fase de transição para a tão falada 4ª revolução industrial. 

No cenário brasileiro, a demora na implantação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) demonstra que a tecnologia que por princípio está sempre à frente do tempo terá soluções tardias para problemas existentes como a venda de dados pessoais.

A LGPD inteira é menor do que a introdução de sua fonte inspiradora: o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados européia (GDPR). A meu ver, isso significa dizer que muitas serão as brechas e interpretações da Lei.

A despeito das Leis, o ser humano é capaz de se utilizar da criatividade frente aos imprevistos da vida e isso o coloca em vantagem com relação às máquinas. 

Não é segredo que os homens adoram tentar adivinhar o futuro e muitas são as crenças baseadas nisso, mas o que podemos prever sobre as profissões do futuro e sobre os riscos da era digital no Direito?

Na área jurídica utiliza-se de conceitos de Big Data como a análise preditiva de dados processuais e que podem ser usados para prever resultados, ou seja, indicadores estatísticos baseados em cruzamentos de dados que auxiliam na tomada de decisões de executivos, tornando-a uma análise prescritiva, que depende de um humano. Com base em decisões judiciais pode-se decidir quais atitudes tomar para prevenir problemas e para isso é preciso ser advogado.

Deste modo, homens e robôs precisam trabalhar em conjunto.

Logo, necessita-se de profissões que envolvam análise e até para estabelecer métricas baseadas na interpretação das leis. Um robô sozinho ainda não consegue saber a intenção do legislador e nem sempre a letra da lei a revela. Mesmo advogados experientes se veem, em dados momentos, em dúvida diante de legislações contraditórias. 

Os advogados, cedo ou tarde, terão que aliar tecnologia ao intrincado conhecimento jurídico. Hoje se espera mais que advogar: o advogado precisa entender como usar os dados disponíveis na tomada de decisões estratégicas.

A Lei costuma sempre estar um passo atrás dos costumes e muitos passos atrás quando se fala em tecnologia.

O direito costuma ser mais tradicional e a tecnologia fala por si tendo a inovação em seu DNA.

Aliar duas áreas tão distintas é um desafio real e tem sua magia.

É fato que muitos dos robôs que atuam na área jurídica colocam em cheque a segurança da informação, afinal os tribunais disponibilizam as informações dos processos, inclusive os processos  em segredo de justiça? Qual a implicação disso? Não há óbice para a obtenção de informações processuais, eis que são públicos. A exceção é para os casos em que o segredo de justiça é decretado, mas os robôs diferenciam essa captura? A forma como isso é usado depende de um critério humano, ou seja, está sujeito a falhas. 

O judiciário aos poucos vai se tornando digital e a tecnologia tem um poder transformador em qualquer profissão. Os recursos estão dentro da mente humana e são ilimitados e nem sempre são palpáveis.

Um desbravador nem sempre é aquele que surfará a melhor onda no mar da disrupção. Nem sempre ser o primeiro é uma vantagem se o seu interlocutor não conseguir visualizar o mesmo mundo que o idealizador. 

Soluções que resolvam a dor mais óbvia do executivo jurídico costumam brilhar muito mais do que excelentes ideias futuristas. E é nesse mar que muitas lawtechs encontram sucesso.

É certo que com a digitalização muitos serão os problemas e a ética e o compliance tendem a ser norteadores para legitimar os próximos passos e suas noções precisarão ser pulverizadas. O advogado do presente e o do futuro precisará se aperfeiçoar nesses quesitos, incluindo, mas não se limitando aos conceitos obtidos a partir do código de ética da OAB.

Hoje há muito mais perguntas do que respostas, mas a inovação passa pela inquietude do ser humano e não há fim.

As atividades que estão em cheque são aquelas que não demandam aprofundamento, criatividade e análise de variáveis subjetivas e, portanto, passam longe de robôs. 

Creio que tenhamos que apostar nas características que nos tornam essencialmente humanos para que as máquinas não consigam nos substituir completamente. 

O que nos diferenciará? Quem viver, verá!

“Não sois máquinas! Homens é que sois!”

O Último Discurso, do filme O Grande Ditador, de Charlie Chaplin

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